quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

AUTO DA COMPADECIDA, um auto de classes



                O Auto da Compadecida, publicado pela Editora Nova Fronteira em sua 36ª edição, é um livro com 187 páginas, que já chama a atenção por sua capa e ilustrações de Romero de Andrade Lima e letras características criadas pelo próprio Ariano Suassuna, como expressão do Movimento Armorial, também sua criatura.
                A abertura do livro já trás expostas as fontes inspiradoras, como os versos de Leonardo Mota no cordel O Castigo da Soberba, os do Enterro do Cachorro (Fragmento de O Dinheiro) de Leandro Gomes de Barros e do anônimo História do Cavalo que Defecava Dinheiro. Esta precaução me faz lembras as aulas-espetáculo do mestre Suassuna que, para não causar surpresa, já se apresentava como gago.
                Bráulio Tavares, posfaciador do livro, se remete a influência dos mecanismos narrativos da Comédia Medieval e Renascentista da Europa e da Comédia Popular do Nordeste na obra de Ariano, onde por fidelidade e tradição “o autor não julga que escreve por si só, mas com a colaboração implícita de uma comunidade inteira”.
                O livro é uma peça teatral escrita em três atos, intermediados pela presença de um palhaço. No primeiro trata-se do enterro do cachorro, no segundo do gato que descomia dinheiro, da chegada do cangaceiro Severino de Aracaju, da distribuição da herança do cachorro e das mortes dos personagens. O terceiro, do julgamento com o Diabo acusando, Nossa Senhora Compadecida defendendo e Jesus julgando.
                A história se passa na cidade de Taperoá na Paraíba e conta as presepadas de um matuto, João Grilo que, acompanhado de uma espécie de fiel escudeiro, reescrevendo o palhaço esperto e o besta, usa de seu ardil para aliviar a luta pela sobrevivência. Espécie de Macunaíma, João Grilo joga com os poderes econômicos e eclesiásticos para angariar alguma vantagem para si e para seu amigo, ganhando, por sua habilidade, o reconhecimento de representante de todos perante o julgamento da Divina Corte.
                O substrato filosófico do livro passa pelos questionamentos dos valores cívicos e religiosos que sustentam a ordem capitalista, incorporada pelo catolicismo. Para isto, faz de Maria a advogada do povo sofrido e marcado pela desigualdade social no nordeste brasileiro, nos fazendo lembrar da letra de Não Existe Pecado ao Sul do Equador, de Chico Buarque, ou mesmo do Cristo quando redime os pobres ao dizer, “Eles não sabem o que fazem!”.
                Esteticamente, apesar de ser uma comédia, faz rir e chorar. O choro nasce da comoção frente a miséria e pela justiça do olhar divino que não deixa de considerar as condições desumanas vividas pelo povo por causa do egoísmo das elites históricas do Brasil.
                O livro é bom de rir, quero dizer, de ler. Obra ovacionada no Brasil e no mundo, traduzida para vários idiomas e montada cenicamente na Alemanha, Grécia, Holanda, Israel, Polônia, Estados Unidos, Espanha, Finlândia, Portugal, Suíça e República Checa, isto dos idos de 2005 pra trás.
                Por tudo isto, Viva Ariano Suassuna! Viva o povo brasileiro!

Ivan Marinho de Barros Filho
Professor, especialista em Economia da Cultura, Artista plástico e Poeta.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

CUBA e FIDEL, no livro A ILHA, de Fernando de Morais

                                                                                               Foto de Gabriel Marinho

A ILHA (Um repórter brasileiro no país de Fidel Castro), republicado em sua 29ª edição em 1989, pela Editora Alfa-ômega, com 176 páginas, é fruto de uma visita “investigativa” do mais renomado biógrafo brasileiro, Fernando Moraes, a Cuba, 17 anos após a independência daquele país do julgo imperialista dos Estados Unidos da América.
                O jornalista, detentor do Prêmio Esso de Reportagem, não se satisfez em recolher dados estatísticos ou de arquivos gerais, nem tão somente o ponto de vista oficial de representantes do poder, buscou impressões das pessoas comuns, como estudantes, agricultores, taxistas..., constatando na diversidade a presença conceitual de um valor onipresente, o da dignidade e humana. Disserta sobre o cotidiano, sobre a cultura, a urbanidade e a ruralidade, a educação, a saúde, a comunicação, a mulher, as eleições, a justiça, a reforma agrária, a economia, em fim, a revolução a cada dia, sintetizada, na abertura do livro, num poema de Agostinho Neto, do livro Poemas de Angola, que diz:

Mantivemo-nos firmes: no povo
Buscáramos a força
E a razão.

Inexoravelmente
Como uma onda que ninguém trava
Vencemos.
O povo tomou a direção da barca.
Mas a lição lá está, foi aprendida:
Não basta que seja pura e justa
A nossa causa.
É necessário que a pureza e a justiça
Existam dentro de nós.

                O repórter, que esperou sessenta dias entre o quarto do hotel e as estâncias diversas da ilha, aguardando o encontro com Fidel Castro, confessou ter muitas surpresas com a Cuba real, entre elas a da generalidade de homens sem barba, cultivada pelo sinal de respeito aos que se destacaram e distinguiram pela luta corporal nas guerrilhas. Surpreendeu-se também com a ausência de policiamento nas ruas, justificada posteriormente pela existência dos Comitês de Defesa da Revolução, o CDR, presente em cada quadra, em cada rua e representado por moradores. Desvendava-se-lhe que a revolução em Cuba não era um marco de tomada do poder, mas o processo cotidiano de transformação política, econômica e social e Fidel, a grande liderança que, desde o período da luta armada, discursava para todos, aliados e adversários, num processo de educação e reeducação conceitual que substituía a paisagem individual pela coletiva e os fins pelos meios, numa construção constante, permeada pela humanização e justiça.
                Sempre que Morais sondava contradições, vícios capitalistas, ouvia do cidadão ou cidadã comum: Isto era na Cuba pré-revolucionária! Assim foi com relação a dois temas recorrentes, a prostituição e a droga.
                Mas é nas relações internacionais que se demonstra a percepção diferenciada do olhar revolucionário. Fernando Morais, como se tentasse encontrar algo que se assemelhasse à realidade condicionada e condicionadora da visão competitiva, testa o posicionamento de Fidel com medidas de troca, numa espécie de câmbio político, como por exemplo, qual concessão faria Cuba perante o desbloqueio parcial por parte dos EUA? Ao quê o comandante repudiava  argumentando que, sendo o bloqueio uma injustiça, não se justificava em sua integridade, não havendo espaço para negociações parciais. Ainda mais profundamente, ele responde à indagação sobre se tiraria suas tropas de Angola se acaso os EUA encerrassem o bloqueio econômico, dizendo que, sendo o apoio para libertação de Angola uma ação de justiça, não havia como transformá-lo em moeda de troca para atender interesses exclusivamente cubanos.
                A linguagem do livro, com fluência e economia, fazendo jus a atividade de um jornalista, torna-se ainda mais convidativa pela busca tácita de significância. Não pretende apenas mostrar, mas testemunhar, convencido que se fez perante o sacerdócio revolucionário do comandante Fidel Castro.

Ivan Marinho de Barros Filho é especialista em Economia da Cultura, artista plástico e poeta.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

UMA VIGA NO OLHO DO TUCANO*

Por Ivan Marinho


Resenha do livro “Privataria Tucana”, em tempos de moral exacerbada.


O poeta Erickson Luna costumava dizer que “o poder se estabelece sobre a ignorância” e Jesus Cristo (Mt. 7:4) “...como podes dizer a teu irmão: Permite-me remover o cisco do teu olho, quando há uma viga no teu?”.

Com um olho no padre e outro na missa, inicio esta resenha confrontando o moralismo salvacionista dos insaciáveis tucanos - aves com bicos maiores que as moelas – e o período do maior saque ao patrimônio do povo brasileiro, o da “Privataria”.

O detalhamento deste saque não caberia numa reportagem de jornal ou revista, como declara Amaury Ribeiro Jr., autor do livro A Privataria Tucana. Portanto, numa resenha, não caberia, sequer, as cifras expostas por este premiadíssimo repórter investigativo.

O livro trata de como o PSDB, através de seus caciques famintos, criou uma teia de relações, a partir de bancos públicos, privados, empresas e um amontoado de offshores criadas em paraísos fiscais para lavar dinheiro das privatizações, servindo ao enriquecimento ilícito de seus pares, bem como a campanhas políticas, como constata o autor. Iluminados pela iniciativa da primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, que pulverizou entre muitos as ações das estatais inglesas, o modo “brasileiro” buscou um caminho mais fácil, segundo o livro: Entregar, de mãos beijadas, nossas empresas a poucos amigos, apontados a dedo.

Tão vorazes se apresentaram os tucanos que seu grande líder, alcunhado FHC, ordenou: “... vender tudo o que der pra vender”. E foi tão obediente seu fiel escudeiro e ministro José Serra que, mesmo a Companhia Vale do Rio Doce faturando US$ 2 bilhões por ano e sendo agraciada com a descoberta de uma imensa jazida de ouro, bradou: “A descoberta desta mina não altera em nada o processo de privatização. Só o preço poderá ser maior”.

No final das contas, olhando para o ícone da justiça, que se levanta com força sobre um governo popular, pergunto-me se está com a venda, sem venda ou à venda. Bom, depois do juiz Lalau e os grampos encomendados por Moro, acredito que cidadãos não serão penalizados pela literalização do verbo vender, não é?

Voltando ao final das contas, o jornalista Aloysio Biondi no livro Brasil Privatizado – Um Balanço do Desmonte do Estado, citado no A Privataria Tucana, esclarece que em 1998, já leiloadas grandes empresas como a Vale, Embraer, Usiminas, Copesul, CSN, Ligth, Acesita e as Ferrovias, o que se propagandeava como lucro pra saúde e educação do Brasil, “surpreendia-nos” com um grande prejuízo. “Enquanto o governo FHC afirmava ter arrecadado R$ 85,2 bilhões no processo,... o país pagara R$ 87,6 bilhões para vender suas estatais. Portanto, pagou R$ 2,4 bilhões a mais do que recebera. Para chegar a este cálculo, Biondi reuniu sete itens: “Vendas a prazo com dinheiro já contabilizado, mas fora dos cofres públicos; dívidas absorvidas, juros de 15% sobre dívidas assumidas; investimentos nas estatais antes do leilão; juros sobre tais investimentos; uso de moedas podres e mais R$ 1,7 bilhão deixados nos cofres das estatais privatizadas. “Mais cinco itens, entre eles custo das demissões e compromisso com fundos de pensão, considerados incalculáveis, não integram a coluna das despesas”.

Diante de tudo isto, agravado pelo surrealismo que estabelecera valor zero às jazidas de minério de ferro da Vale do Rio Doce no processo de privatização, jazidas que abasteceriam o mundo durante 400 anos, o Prêmio Nobel de Economia de 2001, Joseph Stiglitz “cunhou um neologismo ácido ao” denominar briberization às privatizações na América Latina, sendo que bribery “constitui-se crime e significa oferecer, dar, receber ou solicitar qualquer bem ou valor para influenciar as decisões de funcionário público ou outra pessoa em cargo de confiança”. A palavra bribe, segundo o livro, desde o séc. XIV, é usada como “jargão de ladrões”. Talvez, por isso, o ex-ministro de FHC, Mendonça de Barros, mesmo compondo o conluio áureo-celeste, classifique seus concorrentes tucanos, encabeçados por Carlos Jereissati, de “ratada” ou de “telegangue”.


Amaury Jr. desmascara, no livro Privataria Tucana, as cartas marcadas do volumoso saque, apontando, corajosamente, para grandes nomes da política e do empresariado brasileiro, como Daniel e Verônica Dantas, Mário Covas, Marcelo Alencar, José Serra, Verônica Serra e seu marido Alexandre Bourgeois, Gregório Marín Preciado (“primo torto” de Serra), Ronaldo de Souza, Carlos Jereissati (irmão de Tasso)... todos orquestrados por um grande maestro, o Sr. Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-tesoureiro das campanhas de FHC e José Serra, contemplado com a diretoria da área internacional do Banco do Brasil, de onde concedeu e influenciou muito empréstimos aos privatas e a supostos laranjas, como ao “primo torto” de José Serra que, devendo R$ 448 milhões ao BB, obteve um abatimento para pagar, somente, R$ 4,1 milhões. Depois de lido o livro, só nos resta uma dúvida: Será que pagou?

terça-feira, 28 de março de 2017

O TRINTA: TENTATIVAS E ERROS – Breve reflexão sobre o inédito livro de Mauro César de Lima.

            Como insisto em dizer, para que outro não aponte minha gagueira intelectual e, em consonância com o nome do blog, sou leitor aprendiz, o que faz com que minha resenha esteja mais para um texto opinativo do que para uma crítica literária. Aprendi isto com o mestre Ariano Suassuna que, ao iniciar suas palestras, já o fazia dizendo que era gago, para que ninguém se surpreendesse no percurso.
            O Trinta, como me adiantou o autor, nada tem a ver com O Quinze, a não ser a origem miserável dos personagens.
            O enredo começa numa casa pobre do interior, com a visita de um tio que vai levar uma proposta de emprego para seu irmão e encontra a sobrinha só. Movido pelo erotismo de sua visão, ao perceber que a sobrinha maltrapilha despontava a mocidade, Aprígio a estupra e é flagrado por seu irmão que chega com a esposa. Saca sua arma e mata o irmão e a esposa. Quando as pessoas se aproximam, brada dizendo que foi um doido chamado Fulore. As pessoas procuram Fulore, lincham e matam o doido; um sobrinho que vira o acontecido fica mudo e a comunidade se apieda de Aprígio, como se este fosse também vítima do acontecimento. Até conseguirem fugir, as duas crianças ficam na casa do tio, que as ameaça e que não deixa de frequentar o quarto de Alahir, a “sobrinha”. Fogem para a capital e, após ser, novamente, estuprada por um caminhoneiro que os dera carona, é acolhida por um barraqueiro de fachada, rico por ser obrigado a traficar drogas. Alahir estuda e empreende no ramo da prostituição, se tornando uma cafetina de luxo, com influência política, social e econômica que, ao voltar na cidade para se vingar do tio, se enche de compaixão, perdoando com muita naturalidade. Aproximando-se o fim da narrativa, Alahir se apaixona pelo irmão, que volta a falar e, após convencê-lo de que não é sua irmã, se devoram com paixão ardente, muito além do bem e do mal. Realizada existencialmente, Alahir denuncia um grande esquema de corrupção e é abatida por uma superbactéria. Seu irmão e amante, o Guiben, após um longo papo com uma das prostitutas responsáveis pela administração do hiper-negócio de sua irmã, sobre Combustão Humana Espontânea, segue para um mosteiro, solta as cinzas de sua irmã cremada sobre os montes e pega fogo dentro do quarto número Trinta.
            De imediato o leitor se deparará com uma linguagem exageradamente coloquial e, extremamente, televisiva. A tal ponto de, movido pela curiosidade do porvir, chega-se a pensar, precipitadamente, que o autor se referencia no conceito picassiano de que o traço de uma criança seria o último a se alcançar. A leitura induz a uma perplexidade conceitual e morfológica, rompendo as referências de tempo e interpondo valores hedonistas e cristãos. Ao tempo que cita fatos históricos, como que a justificar o incesto, por exemplo, cita relações religiosas com santos marcados pelo sacrifício dos desejos. Leva o leitor mais esperançoso a associar a trama a uma proposta zelimeiriana, ou surrealista, mas , ao final, confirma o espontaneísmo paradoxal da fragmentação pós-moderna.
            O livro O Trinta suscita a observação do leitor para o desejo de se expressar do autor, mas esbarra no léxico, no seu sentido lato. Expressa um tempo pulverizado, sem referências e apresenta um roteiro irregular, como se várias imagens povoassem a imaginação do autor, sobrepondo-se em busca de um sentido. É como se a história devesse ser contada e não romanceada, tornando a longevidade do texto uma inimiga da coerência. Aparenta a expressão de um desejo de amor e de amar reprimido, que precisasse gritar em praça pública, que se justificasse em referenciais históricas, nem sempre plausíveis, como a de Nero. É como um pedido de socorro, que viesse a salvar um sentimento estranho, que parece eminentemente biológico, antropológico, astrológico. Como se este sentimento fosse determinado pelo destino e, todos fossem vítimas, irrecorríveis, deste destino.
            Outra característica de O Trinta é o lugar comum das colocações, tanto que, em várias situações, o autor se substitui pelos ditados, pelas frases feitas, como nuvem passageira, a sua felicidade é aqui, é muita areia pro meu caminhãozinho, tirar qualquer um do sério, dor de barriga não dá só uma vez, etc.. É tão marcante o traço cultural, fortemente oral, do autor, que todos os seus personagens se identificam com o narrador, falam com alguma semelhança, chegando a se confundir com o mesmo. A palavra se manifesta como a palavra de quem ouve e não de quem lê. Algo que pode ser amparado por recursos tecnológicos acessíveis na atualidade, como o áudio ou o audiovisual, que viriam a atender às características desta narrativa em pauta.
            Há quatro páginas do encerramento do livro, descrevendo a perplexidade do personagem Guiben, o narrador faz uma colocação que evidencia estas observações anteriores, quando diz: “Nem ele sabia o que era certo ou errado, fez o que pedira seu coração, fez o que sua irmã pedira. Fez o que achava que era certo. Mas não sabia o que era mentira ou verdade, o que era certo ou errado”. Ou seja, um samba do crioulo doido, como diria o Mauro César.


Ivan Marinho é especialista em Economia da Cultura, escritor e artista plástico.

sábado, 14 de janeiro de 2017

A MENTE SEM MEDO e sem noção de KRISHNAMURTI.

            Acabo de ler o livro A Mente sem Medo, compilações de palestras realizadas por Jiddu Krishnamurti em 1964, em Saanem, Suíça, editado pela Cultrix, com 93 páginas. Palestras, como as intituladas O que é Aprender, Comunicação e Comunhão, A Compreensão do Medo, A Totalidade da Vida, A Mente Iluminada, entre outras.
            O livro é cansativo, do começo ao fim. Apela para a profundidade, mas é superficial e repetitivo. Restringe-se a convidar os espectadores a comungar, sem contestações, o ponto de vista do autor. Nega qualquer tipo de metodologia, baseado na unicidade do indivíduo, mas propõe o despojamento de todo saber, de toda intenção ou intencionalidade, a partir de um esvaziamento total, que venha a confundir criatura e criação, numa fusão completamente sensorial. Nega as religiões ocidentais e orientais, nega o esforço meditativo, nega os conceitos políticos, filosóficos e sociais... parece negar tudo, afirmando que havendo os desejos, os ideais, os problemas... relegados à insignificância, o homem alcança a verdade e a liberdade.
            Técnicas meditativas, como a de Maharishi Mahesh, como as que pudemos viajar nos livros de Carlos Castañeda ou as da Yoga, ou mesmo os estados de SER para além do tempo, como o da menina que come chocolates do poema Tabacaria, de Fernando Pessoa... todas são negadas por Krishnamurti, porque surgem da vontade e, por isso, é despertada pelo EGO, que deve ser eliminado.
            Resume o cristianismo ao sacrifício e o comunismo ao endeusamento do Estado. Postula um estado de não tempo, mas credita as especialidades técnico-científicas, como se o movimento existencial mecanicista, tecnocentrista, egoísta, fosse compatíveis com vidas independentes, como se qualquer cidadão, pedreiro, piloto, soldador, militar... pudesse compatibilizar suas vidas fora de uma perspectiva de tempo, talvez possível para o conferencista Krishnamurti.
            O livro e o pensamento do autor não são de todo ruins. Têm afinidade com os estoicos, com os epicuristas, cínicos e anarquistas; põe  o amor como bem maior e propõe o “enfrentamento” aos condicionamentos, só que é um enfrentamento sem enfrentar. O discurso pode ser comparado ao dos Tropicalistas, quando dizem que “pode ser tudo, inclusive nada”, rsrsrsrsrrsrss...
            Perplexos leitores, perdoem-me a acidez, pois o livro é pequeno e, se não corresponde à expectativa deste leitor que vos escreve, ao menos suscitou vários questionamentos, o que representa possíveis elucidações.

Ivan Marinho é

Especialista em Economia da Cultura, artista plástico e poeta.

domingo, 30 de outubro de 2016

O VOO DE LEONARDO BOFF


            A Águia e a Galinha – uma metáfora da condição humana – toma como princípio uma história contada pelo educador e político James Aggrey em meados de 1925, ao participar de uma reunião com lideranças populares para discutir estratégias de libertação de Gana do julgo inglês.
            Leonardo Boff, professor da Universidade do Rio de Janeiro, doutor em Filosofia e Teologia pela Universidade de Munique na Alemanha, ex-professor da Universidade de Lisboa em Portugal, de Salamanca na Espanha, de Harvard nos Estados Unidos, de Basel na Suíça e Heidelberg, também na Alemanha, além de doutor honoris causa pela Universidade de Turim na Itália e Lund na Suécia, vem, neste best-seller internacional, nos convidar a uma reflexão ampla, que vai do nosso terreiro ao céu do cosmos, bem como do cosmos ao nosso coração. Para isso, se vale de um gênero literário cultivado pelos hebreus e denominado de midraxe hagadá, que, ao contrário do midraxe halacá (que explicava e comentava, atualizando as leis judaicas), ampliava histórias bíblicas acrescentando fatos reais, “legendários ou fantásticos”.
            A partir da história contada por Aggrey numa reunião de onde germinaria a revolução de independência de Gana, Boff não só pratica o midraxe hagadá recheando seu conteúdo, como desenvolve uma reflexão holística, onde “tudo está relacionado com tudo”, contrariando o pensamento científico moderno, nascido com Newton, Copérnico e Galileu, que, por não conceber a complexidade, reduziu o complexo ao simples, compartimentando e isolando, dando origem à infinidade de especializações.
            Pra encurtar a conversa, tentemos resumir a história do Aggrey e a midraxe do Leonardo:
            Um camponês capturou um filhote de águia numa floresta e a criou junto às galinhas no terreiro. Depois de cinco anos recebeu a visita de um naturalista que ficou estupefato em ver a águia se comportando como galinha. Insiste na tentativa de convencer o camponês de que uma águia nunca seria uma galinha, até que resolveram subir a um penhasco para testá-la. Tentaram várias vezes, mas, quando a águia via as galinhas ciscando no chão, saltava para se juntar a elas. Na última tentativa a águia se deparou com o sol, que a invadiu e a tomou por inteiro. Abriu as asas e voou “até se confundir com o azul do firmamento...”.
            Afirmando, constantemente, sua opção pelos mais pobres, bem como pela natureza gregária do homem, Leonardo Boff fez uma ponte entre o homem e a águia, imaginando que o “homem-águia é como um anjo que caiu do seu mundo angelical e, ao cair, perdeu uma de suas asas...” e que “para voar tem que abraçar-se a outro anjo que também caiu e perdeu uma asa”.
            O livro, como as palestras de Leonardo Boff, que encontramos facilmente no You Tube, é um chamamento, grave e sereno, para um mergulho no “Abismo insondável de realização e de bem-aventurança, Deus”. Quando “seremos unos no Uno. Convergentes na fusão e diversos na comunhão”.
            Na página 175, beirando o final do livro, como quem conclama a libertação, Boff declara: “Poderes mundiais têm interesse de manter o ser humano na situação de galinha. Querem apagar de sua consciência a águia. Por isso a grande maioria da humanidade é homogeneizada nos gostos, nas ideias, no consumo, nos valores, conforme um só tipo de cultura (ocidental), de música (rock), de comida (fest food), de língua (inglês), de modo de produção (mercado capitalista), de desenvolvimento (material)”.
            Leitura pertinente com o Brasil de 2016, quando as asas do povo começavam a se abrir e o poder conservador e usurário se mobiliza para cortá-las.

Ivan Marinho de Barros Filho
Especialista em Economia da Cultura, poeta e artista plástico.

ENTRE TODOS OS HOMENS: O EVANGELHO SEGUNDO FREI BETTO.


            Entre todos os homens suscita, de cara, uma curiosidade extrema, não só pelo título ou tema, mas por ser escrito por quem foi: Frei Betto, um dos maiores teólogos do mundo, traduzido para 30 línguas, detentor de muitos prêmios literários, dentre os quais o Jabuti e o Juca Pato, polêmico defensor de uma igreja engajada, do lado do povo, do lado dos pobres, como preconizou o Concílio Vaticano II, iniciado por João XXIII e concluído por Paulo VI.
            Marcado, visceralmente, por prisões e torturas psicológicas, Frei Betto não é afeito ao meio-termo e, para quem iniciou suas leituras a partir de Batismo de Sangue, como eu, a expectativa com relação a Entre Todos os Homens é a de ousadia, de desmascaramento do misticismo metafísico ou institucionalista. Confesso que esperava um enredo mais ficcionista, onde pudéssemos teologizar os evangélicos, suprindo seus vácuos racionais mas, no entanto, o que percebemos é que, “fiel” à tradição de obediência, ou estrategicamente amparado nela, e prudente com relação a quaisquer polêmicas, o autor não põe palavras na boca de Jesus, nem analisa exegeticamente seus feitos. Seguindo a sequência comum dos evangelhos, Frei Betto não questiona os poderes de Cristo, porém, apresenta-os com naturalidade. Apenas num momento nos deparamos com uma exegese mais declaradamente materialista, como seria de se esperar em todo livro, quando do “milagre da multiplicação dos pães e peixes”: O livro descreve o diálogo ficcional entre os apóstolos Tadeu e Natanael sobre o acontecido. O primeiro, que estivera ausente no momento, pergunta sobre o milagre da multiplicação e é repreendido pelo segundo, que se irrita: “Essa gente enxerga camelos voadores onde só vejo pardais. Não te deste conta de que multiplicar é prestidigitação e que o mestre não faz mágicas?” Tadeu explica que havia, atraído pela fama do mestre, vários comerciantes entre a multidão e, que o grande milagre foi tê-los sensibilizado para a comunhão: “operou, sim, um milagre. Não o da multiplicação, mas o da divisão, raiz de toda justiça”.
            O livro, de 391 páginas, editado pela Ática, é fruto de uma pesquisa histórico-exegética em mais de 40 livros e uma perscrutação in loco na Palestina em companhia de Cláudio Vianney Malzoni - Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Doutor em Ciências Bíblicas pela Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém -, é um relato contundente das contradições que permeavam aquele mundo sob o império romano. Expõe uma liderança que preconiza o fim do poder e a supremacia do Amor e, com base nisso, revela-se agressivo, principalmente perante às lideranças (cerca de 20 mil) religiosas, com as quais travou um debate público onde não os poupou dos conceitos de hipócritas e de raça de víboras. Define Deus como materialização do Verbo e diz que “Ninguém vem ao Amor senão por mim...”, “Não crês que estou no Amor e o Amor em mim?”
            As últimas palavras do livro estão na contracapa. Peço-as emprestadas a Alfredo Bosi para encerrar, também, esta simplória resenha, ou comentário opinativo:
“Lendo Entre Todos os Homens, constata-se mais uma vez, mas agora de forma renovada, a perenidade da mensagem evangélica. Cada geração e cada cultura vêm, há séculos, acentuando este ou aquele traço inerente à Boa Nova. A versão de Frei Betto tem muito a ver com a necessidade contemporânea de liberdade, solidariedade e, acima de tudo, generosidade. Esta é a face de Jesus que o livro ilumina mais vigorosamente”.

Ivan Marinho de Barros Filho é especialista em Economia da Cultura, artista plástico e poeta.